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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Eminem no divã de Sigmund Freud

Alguns se lembram da análise feita pelo Professor Wendell de Oliveira Albino sobre o trabalho do Eminem (leia aqui).
Abaixo esta mais um artigo do mesmo,um estudo sobre Eminem sob o prisma de Sigmund Freud.

Confiram e curtam através da página do Professor (clique aqui) para que assim o texto ganhe mais notoriedade:

Eminem no divã de Sigmund Freud

O tema do duplo sempre foi impactante e recorrente na história da literatura, ele surgiu e continua a aparecer sob as mais diversas formas, intrigando e despertando a curiosidade nas pessoas. Realizar uma síntese do tema não é tarefa fácil, já que este pode ser analisado a partir de diferentes óticas. As histórias do duplo geralmente propiciam efeitos sensoriais como o estranhamento e o mistério. O duplo mais famoso é aquele simbolizado através de histórias de gêmeos ou de sósias, sendo que os dois personagens apresentam semelhança física e, certas vezes, até mesmo comportamental, desse modo, dificultando que identifiquemos cada um dos seres. No cinema, o diretor polonês Krzysztof Kieslowski abordou esse tipo específico de duplo em seu filme: “A Dupla Vida de Véronique”, nesse caso, tem-se uma história de sósias que não se conhecem e vivem em partes diferentes do mundo, porém certas situações pela qual uma das personagens passa, acaba afetando na vida da outra personagem.

O duplo ocupa um espaço extenso no campo da literatura, mas também se faz presente no universo do cinema e até mesmo da música. Neste último gênero, podemos destacar o trabalho do rapper Eminem, que criou para si um personagem chamado de Slim Shady, integrando assim, narrativas góticas ao gênero musical do rap. O reconhecimento desse personagem acontece a partir da mudança de voz do artista, esse que ao encarnar seu alter ego utiliza uma voz mais nasalada. Slim Shady cria um mundo de sombras, no qual o eu lírico torturado por impulsos proibidos pratica ações que demonstram o lado perverso de sua alma.

Na música ‘My Darling’, temos o drama da ambivalência entre o bem (Eminem) e o mal (Slim Shady) na qual o artista sofre. O rapper cria nessa música uma história influenciada por um tipo especifico de duplo, que foi apresentado através do texto freudiano de 1919 – “O Estranho” [“Das Unheimliche”]. Observamos na narrativa musical a segunda identidade (Slim Shady) emergindo e sobressaindo sobre a primeira identidade (Eminem). Slim Shady apresenta-se como um ser ameaçador e perseguidor, que vem a tona, despertando o sentimento de estranhamento e repulsa em Eminem. Temos uma história em que duas facetas brigam entre si para decidir qual personalidade irá reinar. Para elucidar melhor o cerne dessa música, vale destacar o conceito de Estranho, criado pelo psicanalista Sigmund Freud: “(Algo que era para ser mantido em segredo, mas emergiu e tornou-se visível) ele pode ser encarado como um mero efeito (um processo passivo) que de repente torna-se causa (torna-se um princípio ativo), ganha vida própria, escapa à repressão da mente consciente”.

É necessário ressaltar que ‘My Darling’ é uma composição genial que faz com que Eminem esteja no mesmo patamar de Ernst Theodor Amadeus Hoffmann e Edgar Allan Poe, mestres do relato alucinatório na primeira pessoa. Infelizmente ‘My Darling’ é mais conhecida apenas pelos fãs de rap, já que não foi lançado nenhum vídeo clipe da música, inviabilizando dessa forma uma história sobre o duplo para grande massa. Porém no finalzinho de 2013, ganhou-se um motivo para comemorar através de ‘The Monter’ (O Monstro), música de Eminem e Rihanna, na qual se tem novamente uma história sobre o duplo, mas a diferença é que a música ganhou um vídeo clipe, consequentemente produziu-se a popularização de uma história que vem sendo material de estudo e análise de escritores e psicanalistas ao longo dos últimos anos.

No vídeo clipe, acompanhamos Eminem deitado em um divã, sendo analisado por uma psicanalista, interpretada pela Rihanna. Eminem fecha os olhos e é então que a passagem para o interior de sua mente acontece, sendo que é tudo realizado através de uma metáfora, em que o rapper está dentro de um elevador que desce até o encontro de seu outro eu (Slim Shady), que está enjaulado, consequentemente percebemos que Slim Shady é a personalidade reprimida de Eminem. Notamos a aflição do artista em tentar entender esse outro lado que habita em sua mente. ‘Porque eu preciso de um intervencionista pra intervir entre mim e esse monstro / E me salvar de mim mesmo e de todos esses conflitos/Eu só estou retransmitindo as mensagens que a voz da minha cabeça está dizendo/ Talvez eu precise de uma camisa de força, encare os fatos/ Eu sou louco de verdade’. A partir dessas passagens da música, notamos que sua essência nos leva às palavras de Freud “A epilepsia e a loucura como indicações de forças estranhas na mente de cada um”.

É interessante notar que ao mesmo tempo em que Eminem reprime a faceta de Slim Shady, há também uma parte de sua mente que parece querer libertar seu alter-ego sombrio, notamos isso nas seguintes passagens da música: “Sou amigo de um monstro que está debaixo da minha cama / Lido bem com as vozes na minha cabeça/ Sou louco de verdade, mas estou bem com isso”. Ao final do vídeo clipe, Eminem aproxima-se de um Slim Shady enjaulado e atormentado, esse acaba jogando um pedaço de papel que supostamente deve conter letras de músicas em direção ao rapper, depois disso Eminem pega o papel do chão e se afasta de Slim Shady. Podemos considerar esse desfecho como uma metáfora para o que seria “o retorno ao reprimido”, ou seja, o esforço de Eminem em fugir de seu alter-ego sombrio acaba o levando cada vez mais perto de Slim Shady.

Ouvir ‘The Monster’ é caminhar lado a lado com Eminem sob a linha tênue que separa a loucura da sanidade. O artista sempre foi reconhecido pelo seu dom de composição, porém dessa vez o rapper quebrou todas as barreiras e criou brilhantemente uma das narrativas com maior teor psicológico do universo musical. ‘The Monster’ é, acima de tudo, a tentativa desesperada de Eminem em desvelar sua interioridade, sendo que o rapper narra tudo de modo tão meticuloso que não há como fugir da comoção que a música desperta, consequentemente o caráter angustiante dessa história atinge de forma impactante nossos centros nervosos.

Vale destacar que o vídeo clipe da música atingiu em apenas duas semanas a marca exorbitante de mais de 30 milhões de visualizações. É surpreendente o modo como uma história sobre o duplo desperta tanta curiosidade nas pessoas. Talvez o fator estimulante deste fascínio seja fruto de um dos maiores e mais intrigantes questionamentos do ser humano: “Quem realmente nós somos?”.

Construir histórias sobre o duplo não é nada fácil, já que é necessária uma técnica apurada para delinear essa teia de grande complexidade psicológica, desse modo, apenas os grandes gênios conseguem tal proeza e dessa lista destacam-se: José Saramago (O homem duplicado); Fernando Sabino (O bom ladrão); Chuck Palahniuk (Clube da luta); Krzysztof Kieslowski (A Dupla Vida de Véronique); E.T.A. Hoffman (O elixir do Diabo); Edgar Allan Poe (William Wilson); Oscar Wilde (O retrato de Dorian Gray); William Shakespeare (A comédia dos erros); Stevenson (O estranho caso de Dr. Jekyll e de Mr. Hyde, ficando mais conhecido pelo título ‘O médico e o monstro’); Fiódor Dostoiévski (O duplo); e Eminem (My Darling/ The Monster). Diante de tudo que foi exposto, têm-se a certeza de que jamais houve na história do Hip-Hop um mergulho tão profundo na psique humana quanto o das músicas ‘My Darling’ e ‘The Monster’ do rapper americano Eminem.

Por Wendell de Oliveira Albino
Natural de Florianópolis/SC. É graduado em Letras – Língua Portuguesa e Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC.
www.carosouvintes.org.br

4 comentários:

  1. Ser um rei?Acho que não. Por que ser um rei... Quando você pode ser um deus?

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  2. viu!! fazer o duplo só os gênios conseguem, tipo Eminem/Slim Shady....

    #JaPah

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